O Tempo

Escrever sobre o tempo é escrever sobre angústia.

Angústia por uma simples razão. O tempo é finito, pois termina com a vida dos seres, tenham eles consciência ou não de tal fato.

O tempo gera mudanças inevitáveis e irreversíveis. Ainda que a personagem Dorian Gray, na interessante obra de Oscar Wilde, tenha conseguido por expedientes escusos que seu retrato envelhecesse, e não ele, ainda que a imprensa noticie, e o faz com frequência, a descoberta de fórmulas mágicas para se evitar o envelhecimento ou reduzir seus efeitos, ainda que as cirurgias plásticas estejam cada vez mais desenvolvidas para fins de reduzir o impacto do tempo, há um fato inexorável: o tempo passa e o ser humano envelhece, perdendo o vigor da juventude.

Outra angústia típica da sociedade pós-moderna relacionada ao tempo é a de que “o tempo está passando muito rápido”. A frase é curiosa, pois o tempo é medido em dias de vinte e quatro horas já há muitos séculos, então não haveria razão para tal sensação. Contudo, o ritmo de vida passou a ser aceleradíssimo nos grandes centros, em que a tecnologia permitiu agilidade, mas, perversamente, tem como consequência o aumento de trabalho, fazendo com que um ser humano, ao mesmo tempo, realize múltiplas tarefas.

Mas o que é tempo? Essa pergunta fundamental desafia o gênio de filósofos desde o nascimento da ancilla scientiarum e, ainda hoje, está longe de ser respondida. Não há uma acepção única do termo, sendo mesmo de se perceber que sua conceituação depende fundamentalmente da postura filosófica do conceituador.

Pode-se conceber o tempo de duas formas: linear ou cíclica (também conhecida por circular ou espiral).

A concepção linear de tempo refere-se a uma sequência irreversível de eventos que se encaminham para determinado fim e, portanto, são dotados de um sentido certo. Nessa linha de pensamento, a personagem de Umberto Eco, Adso de Melk, já com bastante idade, ao relembrar os eventos terríveis ocorridos naquela abadia italiana em certo tempo da Idade Média, reconhece saber mil modos de escapar das seduções da carne e se pergunta se deveria sentir orgulho de estar livre da tentação dos demônios meridianos, mas não livre de outra, qual seja, rememorar fatos do passado. Rememorar é tola tentativa de escapar ao fluxo do tempo e à morte.

O tempo é linear no contar das horas, dos dias, dos meses e dos anos. A hora passada não retorna. A ideia de finitude é clara: a cada hora estamos um pouco mais perto da morte.

Nesta cena alegórica francesa do Século XVI, temos o tempo que domina o mundo. O tempo está representado pela figura do idoso sobre o mundo, segurando uma ampulheta. Ao lado do tempo vemos duas figuras: a Fortuna e a Morte que evocam a passagem inexorável do tempo. Nota-se que as figuras estão sobre um barco que representa a ideia dos fluir dos dias e que esse passar do tempo não permite retorno O tempo não só é irreversível como leva tudo com ele.

Ainda, em meados dos anos 2000, surge outra obra ficcional emblemática sobre o tempo e essa superação de sua irreversibilidade: Efeito Borboleta. No filme, determinado rapaz tem o dom (ou maldição) de perder os sentidos e voltar ao passado. Essa volta significa reviver partes de sua vida. Por meio de uma reconstrução do tempo, o presente e o futuro são alterados completamente.

Já a concepção cíclica do tempo implica o compreender como a repetição de determinados eventos, seja repetição perfeita ad infinitum, que levaria a uma ideia circular do tempo, seja repetição aproximada que se dirige a determinado sentido, o que levaria, a uma ideia espiral do tempo. É essa a noção adotada por Karl Marx no início da obra O 18 Brumário de Luis Bonaparte, com a seguinte assertiva: na História, os fatos relevantes e as personagens importantes acontecem duas vezes: a primeira como tragédia, e a segunda como farsa. Karl Marx dá como exemplo de tragédia São Paulo e de farsa Martinho Lutero. Em paralelo, considera Napoleão I a tragédia e Napoleão III a farsa.

Na obra, em razão dessa noção cíclica de tempo, Marx afirma que os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Tudo de efetivamente importante ou relevante se repete, portanto.

O caráter circular ou cíclico do tempo leva Jean-Claude Carrière a afirmar a estranheza da ideia de medir o tempo, pois fenômenos circulares não se medem.

Para os antigos, o tempo cíclico se verificava com o passar das estações. De tempo em tempo essas se sucediam. São os fenômenos da natureza que se sucedem, voltam como se houvesse um verdadeiro dejá vu.

Os artesãos medievais tinham fascinação em retratar as estações do ano. Em cada uma delas, a tarefa era diferente, mas com o retorno de certa estação, havia a repetição de uma tarefa. Conforme se vê da imagem supra, em janeiro, por exemplo, mês de neve e muito frio na Europa central, os trabalhos eram realizados em lugares fechados, diante da impossibilidade de se lidar no campo.

O tempo na mitologia grega era um tempo cíclico, em que os fatos relevantes se repetiam. Assim ocorreu nas lutas entre as divindades pelo poder supremo. Cronos, filho de Urano (Céu) e Gaia (Terra), trava uma batalha pelo poder com seu pai e, com o auxílio de seus irmãos, os Titãs, a vence, destronando Urano e aprisionando-o no Tártaro. Cronos, então, casa-se com Rhea e tem seis filhos: Héstia (deusa dos lares), Deméter (deusa da vegetação), Hera (deusa da terra), Poseidon (deus dos mares), Plutão (deus do mundo inferior) e Zeus (deus do céu). Para evitar a repetição da história, sabendo Cronos que um de seus filhos o destronaria, resolve engolir todos os seus descendentes. Contudo, Rhea substitui Zeus por uma pedra e Cronos não o engole. A profecia, então, se realiza e Zeus vence o pai na chamada Guerra dos Titãs (os quais apoiavam seu irmão, Cronos), o faz vomitar todos os seus irmãos e se torna o senhor dos deuses.

Com a vitória dos deuses sobre os Titãs, Cronos é aprisionado no Tártaro (onde anteriormente Cronos aprisionou seu pai, Urano), e os Titãs recebem severas punições: Atlas, por exemplo, é condenado a carregar o mundo sobre as suas costas.

Mas a prova de que realmente o tempo mitológico é cíclico vem da continuação da lenda. Zeus se casa com Metis, filha de Oceano e Tithys, e é informado por estes que da união nasceria um filho mais arguto que o próprio Zeus, o qual viria a destroná-lo. Para evitar a repetição da história, Zeus engole Metis. Metis, porém, estava grávida de gêmeos, e a gestação prossegue na cabeça de Zeus. Dela, nasce Atenas (daí ser ela a mais inteligente das divindades).

Em conclusão, é inegável que o tempo na mitologia grega era efetivamente considerado cíclico, e, apesar de os deuses gregos serem entes imortais, isso não quer dizer que sejam atemporais, pois a noção de começo existe – é possível traçar a genealogia divina ao buscar saber de quem esse ou aquele deus é filho.

Segundo a tradição hindu, o tempo também é cíclico. O Kali Yuga (tempo de Kali) significa o tempo da destruição, do descumprimento das leis, da guerra civil, da degenerescência da espécie. É a miséria generalizada acrescida de chuvas cósmicas colossais e vapores vermelhos e amarelos que farão da terra um imenso charco. Então, surge uma questão: qual seria o motivo para protegermos nosso dharma[1] diante do caos? Na batalha entre Vishnu e Shiva, o primeiro preserva o mundo, enquanto o segundo procura destruí-lo. Em épocas difíceis, Vishnu desce para combater Shiva e faz retroceder em alguns anos o tempo da destruição.

Dessa forma, a noção hindu de tempo é cíclica, e não linear. Os anos retrocedem e se repetem.

A própria imagem de Shiva deixa claro que, apesar de ele ter vencido, nem tudo está perdido: com seu pé erguido, aponta para o tambor original; ou seja, um dia tudo recomeçará. A sua própria estátua é um ciclo. Em outras palavras, se a vitória de Shiva e a destruição são certas, o fato de Vishnu adiar sempre seus efeitos traz a esperança aos homens.

Em nossa próxima coluna trataremos do Tempo e o Direito.


[1].   A noção de dharma corresponderia, grosso modo, a de espírito ou alma.

Para você citar:

SIMÃO, José Fernando. O tempo. Jornal Carta Forense, São Paulo, , v. 121, p. B16 – B16, 01 jun. 2013.

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