Tempo de refletir – Passado, Presente e Futuro.

Não foi sem espanto que recebi o telefonema de Paulo Stanich, que ao lado de Lúcio Maia, é editor responsável pela nossa Carta Forense, me convidando para redigir o Editorial desta que é a Centésima Edição deste periódico consagrado como o mais importante do país entre seus assemelhados.

Em um momento de minha vida acadêmica em que o “Tempo” assume contornos relevantes, pois finalizei agora minha tese de Livre-docência que tem este elemento como principal objeto, mal pude acreditar que em setembro de 2011 a Carta Forense atingiria seu centésimo exemplar.

Ainda me lembro com nitidez o telefonema recebido do aluno e saudoso amigo Marcelo Copelli naquele ano de 2001, para “conhecer o Paulo e o Lucio” que estavam iniciando um jornal destinado aos alunos de direito. Após rápida apresentação, soube que os dois jovens e entusiastas estudantes de direito, cursando seu quinto ano, estagiários de escritórios distintos que eventualmente se encontravam nos balcões dos fóruns, tinham, em razão de conversas sobre a possibilidade de abrir um jornal divulgando o melhor da doutrina jurídica, criado, no mês de outubro, um jornal chamado Folha do Acadêmico.

Em setembro de 2001 os jovens e sonhadores estagiários pediram demissão dos escritórios em que trabalhavam e, em outubro de 2001, prepararam a primeira edição do jornal com 10.000 exemplares.

Disse-me Paulo que eu escrevia na Coluna que inicialmente seria de Miguel Reale, pois o ilustre professor não poderia ser colunista do periódico em razão de compromissos profissionais. À época, com 27 anos e mestrando em Direito Civil na Universidade de São Paulo, aceitei, de pronto, o honroso convite, tendo a minha primeira coluna publicada em dezembro de 2001.

Confesso que não imaginei a importância que o projeto teria em minha vida e nem a grandiosidade que atingiria. A Folha do Acadêmico teve 17 edições e eu escrevi em todas elas.

Para maior aceitação de mercado, em março de 2003, os ainda jovens Editores, atinados com as necessidades do público em geral, encerraram a Folha do Acadêmico e começaram a Carta Forense que recebeu um projeto gráfico mais arrojado e uma linha editorial mais definida. A partir de então selecionaram grandes juristas para serem nossos colunistas fixos e começaram a ter uma excelente aceitação da comunidade jurídica. Já mestre em Direito pela USP, escrevi minha primeira coluna para o jornal: Resolução e Resilição contratual.

O tempo é traiçoeiro porque passa e não nos avisa. É um tempo linear que não tem volta. Neste esforço de memória para narrar os fatos passados, lembro-me da frase da personagem de Umberto Eco, Adso de Melk, já com bastante idade ao relembrar os eventos de sua juventude, que “rememorar é tola tentativa de escapar ao fluxo do tempo e à morte”.

Então falemos agora do presente. A distribuição que antes estava focada somente no Estado de São Paulo, há anos está nacionalizada correspondendo a 40% de toda tiragem. Em decorrência da qualidade do periódico, Ministério Público, Magistratura e Procuradorias começaram a distribuir o jornal aos seus membros.

Como as mídias evoluíram nestes 10 anos, o jornal tem seu portal para possibilitar a leitura por um infinito número de pessoas que desejam um conteúdo de qualidade, sem perder o dinamismo da fórmula jornalística. O portal da Carta Forense tem uma grande importância, pois recebe acesso de todo Brasil e de alguns profissionais da comunidade lusófona. O site é atualizado diariamente com jurisprudência, além das matérias publicadas na forma impressa.

Dos iniciais 10 mil, a Carta Forense conta atualmente com 45 mil exemplares mensais e mais de 5 mil artigos publicados.

O tempo passou e gerou mudanças inevitáveis. Se é verdade que a personagem Dorian Gray, na interessante obra de Oscar Wilde, conseguiu por expedientes escusos que seu retrato envelhecesse, e não ele, a Carta Forense, em razão do brilho e incansável trabalho de seus Editores, conseguiu manter-se jovem, mas com a maturidade que só o tempo é capaz de trazer.

Nas palavras de Paulo Ferreira da Cunha, para haver direito é preciso guardar na memória, é preciso lembrar-se.[1] A Carta Forense, hoje, é o jornal que faz a memória do Direito no Brasil, sendo depositária dos mais variados artigos dos mais diversos colunistas.

Mas os amigos leitores devem estar se perguntando: “havendo tantos Colunistas na Carta Forense, por que o jornal escolheu o Simão para redigir este editorial comemorativo?” A razão do convite dos Editores Paulo e Lúcio é simples: eu sou o decano dos Colunistas, o mais antigo.

Parabéns à Carta Forense pela sua edição de nº 100! Parabéns ao Paulo e ao Lúcio por terem acreditado em sonho e ousado realizá-lo! Tendo a função de nos relembrar do passado a fim de que possamos ordenar o presente e prever o futuro, que a Carta Forense prossiga sua nobre missão de divulgar conhecimento.

[1].   CUNHA, Paulo Ferreira da. Memória, método e direito: iniciação à metodologia jurídica. Coimbra: Almedina, 2004. p. 22.

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